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Domingo, 26 de Novembro de 2006

Valores Ético-Políticos

Charles Péguy dizia que tudo começa em mística e acaba em política. Desde sempre que a actividade política vive condicionada por esta verificação. No começo, estão os ideais, os princípios, a generosidade das causas, mas o confronto com a realidade suscita a necessidade de conciliar, de encontrar compromissos, de lidar com a complexidade dos fenómenos sociais. Sempre assim aconteceu. Por isso, os cidadãos estão colocados sempre perante o dilema que contrapõe a formulação abstracta dos valores ético-políticos e a aplicação prática e impura dos mesmos. Daí as desilusões, a predominância do curto prazo e do imediato e o esquecimento da mística e dos ideais. E, nos dias de hoje, a força dos meios de comunicação de massa, só reforça esta transigência com o imediato e com a ilusão. Res non verba, coisas e não palavras, diziam os clássicos, para sinalizar à vida política a necessidade de cuidar da resolução dos problemas, em lugar do primado das respostas vagas e das promessas.

 Jorge de Sena, num ensaio luminoso sobre Maquiavel, recorda-nos, a propósito da contradição entre pensamento e acção, que «nenhum pensamento e nenhuma acção existem, ou são possíveis, sem a resistência das estruturas sociais ou materiais, cuja oposição os gera, e que, gerando-os, é por eles conhecida como outra, uma vez que o pensamento e a acção, actuando, transformaram a natureza daquela resistência, criaram uma outra realidade». A vida política resulta dessa contradição que gera uma «outra realidade», para além da primeira relação entre os valores e o pensamento. Afinal, para Sena, Maquiavel encontra a monstruosidade do Príncipe ao reduzir, paradoxalmente, o homem à sua virtù, procurando a sua dignidade responsável- e retirando-lhe a desculpa de «atribuir-se o direito de ser monstruoso à escala divina». É na dignidade responsável, humaníssima, que tudo se põe. Não estamos na escala divina. Estamos na esfera limitada e imperfeita da acção humana - de uma acção que erra, que hesita, que avança por tentativas e pelo efeito da dúvida. O mal não é um critério, mas um resultado. E daí a necessidade de procurar superá-lo e de encontrar uma via de acção, capaz de conciliar pensamento e prática, mística e política. O mal de Maquiavel não é, pois, a justificação, mas a ausência dela. E assim a acção política deixa de conter a fatalidade do mal, para passar a conter uma tensão permanente entre a procura da justiça e a possibilidade da sua negação.

 

Na política, insistia o poeta de Peregrinatio ad Loca Infecta: «Todo o pensamento e toda a acção levam em si aquilo que os contradiz e destrói, aquilo que os fará inferiores à realidade que os ultrapassa.» O pensamento e a acção, os princípios e a realidade «criam-se mutuamente». É o âmago da ética que está nas preocupações do autor de O Príncipe. Encontramo-nos, no fundo, perante a tragédia humana retratada pelo maquiavelismo. A mística de Péguy gera uma «outra realidade» - a política, no sentido de domínio da imperfeição, mas, simultaneamente, como domínio paradoxal da exigência e da justiça. “

 Guilherme d’Oliveira Martins
Advogado. Presidente do Centro Nacional de Cultura.

in Desafios à Igreja de Bento XVI, A César o que é de César, pp.27-29, Casa das Letras/Editorial Notícias, 1ª Edição Novembro de 2005.

publicado por Tó Zé às 16:49
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4 comentários:
De Luís Esteves a 28 de Novembro de 2006 às 08:54
Gostei do que li.

Acrescentarei ...

O que se designa de mistico, para mim, entendi como a religião, eu que sou católico, não podia entender outra coisa.

Para os católicos, que sabem que Deus é amor, então o mal não existe, existe sim a ausencia de Deus nos corações humanos, ou seja a contradição está no equilibrio derivado da liberdade que Deus nos deu para optarmos, entre Ele e a sua ausencia.

Existe um movimento cristão, cujo suporte da sua existencia está num tripé constituido por : estudo, acção e oração. Ora o que refere neste artigo de estudo e acção, estes elementos são realmente importantes para o homem, mas sem a oração (sem o misticismo) significa esquecer as suas origens, ignorar o principio. Ora Deus não nos quer fazer esquecer a nossa dimensão divina, porque só desse modo as nossas acções, as nossas descobertas, os nossos avanços tecnológicos, politicos, sociais, ... pode ser positivos, podem ser de ... Amor. Quando nos corações dos cientistas, dos politicos, dos homens não existe Deus, então o uso que se fará das coisas será um uso sem amor, será um uso desumanizado.

De Renata a 29 de Setembro de 2008 às 17:03
gente eu sou uma garota com 15 anos de idade, estou fazendo o 1° ano do 2° grau, e estou fazendo uma pesquiso sobre valores politicos. Eu não entendo muito bem sobre politica pois nunca me interessei mas eu queria achar algo haver com minha pesquisa, ja procurei em tudo que é sobre valores políticos .</a> Porque vocês dizem que coloca sobre valores políticos .</a> e eu não achei nada sobre o mesmo o que que custa vocês falarem sobre valores políticos .</a> sem sair do assunto???????????????????????
De vanessa a 31 de Maio de 2009 às 18:24
Olá gente! Sou uma garota de 14 anos que preciso fazer uma pesquisa para a escola sobre valores politicos. estou na oitava série ;@ eu tambem nao intendi muito sobre isso. podem por uma explicação MELHOR do que essa ?
OBRIGADA!
De Tó Zé a 1 de Junho de 2009 às 21:04
Agradeço a sua questão. Saberei responder? São mais importantes as respostas que encontre por si do que as que outros lhe possam dar. De qualquer forma cá vai uma tentativa da minha parte: (presumo que escreva do Brasil) aqui em Portugal dizemos " olha para o que eu digo e não para o que eu faço "; isso retrata um pouco a contradição de que fala o texto. O ideal político, aquilo que é anunciado por palavras, entra por vezes em choque (contradição) com o que depois os políticos conseguem realizar na prática. Em especial nos intervalos de tempo pequenos (curto prazo). Não é necessariamente porque os políticos não acreditem ou não queiram realizar o ideal que anunciaram mas porque eles têm limitações, e a sua realização tem que ser uma coisa concreta, palpável e não abstracta. Logo demora tempo e tem que resolver muitos aspectos e contradições práticas e não depende só da sua vontade mas também das condições materiais e sociais para que esse ideal se possa realizar (se o for) alguma vez. E ainda da aceitação e aprovação pela sociedade desses ideais, o que é decisivo. Mas se a acção política for baseada em princípios de ética, mesmo errando e tentando de novo, mesmo sendo imperfeita na sua acção, é o melhor caminho para procurar trazer mais justiça para a sociedade.

Obrigado.

Tó Zé

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