"Sítio onde está luz; lanterna, farol" - José Pedro Machado, Vocabulário Português de Origem Árabe

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Bolero ...

BOLERO DO CORONEL SENSÍVEL
QUE FEZ AMOR EM MONSANTO

Eu que me comovo
por tudo e por nada
deixei-te parada
na berma da estrada
usei o teu corpo
paguei o teu preço
esqueci o teu nome
limpei-me com o lenço
olhei-te a cintura
de pé no alcatrão
levantei-te as saias
deitei-te no banco
num bosque de faias
de mala na mão

nem sequer falaste
nem sequer beijaste
nem sequer gemeste
quinhentos escudos
foi o que disseste
tinhas quinze anos
dezasseis, dezassete
cheiravas a mato
à sopa dos pobres
a infância sem quarto
a suor a chiclete
saíste do carro
alisando a blusa
espiei da janela
rosto de aguarela
coxa em semifusa
soltei o travão
voltei para casa
de chaves na mão
sobrancelha em asa
disse: fiz serão
ao filho e à mulher
repeti a fruta
acabei a ceia
larguei o talher
estendi-me na cama
de ouvido à escuta
e perna cruzada
que de olhos em chama
só tinha na ideia
teu corpo parado
na berma da estrada
eu que me comovo
por tudo e por nada.

António Lobo Antunes,
in Letrinhas de Cantigas,
Publicações Dom Quixote,
1ª Edição, 2002, pp.32-33.
publicado por Tó Zé às 18:42
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3 comentários:
De zenite a 31 de Março de 2007 às 23:14
sim, quinze anos tinha
no seu corpo em brasa
a tal senhorinha
que não tinha casa.
tinha tranças d’oiro
e a pele alvacenta
tu foste o primeiro
a arrastar-lhe a asa
naquele janeiro
dos anos setenta.

ela pai não teve
sequer tinha mãe
não tinha sapatos
não tinha vestidos
não tinha ninguém
só dias sofridos.

não havia lua
não havia estrelas
e não tinha abrigo,
a casa era a rua
da pobre donzela
que não tinha amigos.

o seu corpo grácil
de pele de alabastro
jamais resvalado
não tinha cadastro
mas foi presa fácil
dum lobo esfaimado.

se um dia voltares
à estrada velha
no negrume agreste,
detém-te e descobre-te,
acende uma vela:

verás numa faia
- ou “feral cipreste”? -
a seta-coração
bem como a mensagem
que a bela catraia
em aflito pranto
no tronco entalhou
nessa noite túmulo
do seu corpo espanto.
verás, para cúmulo,
que foste o primeiro
e também o último
a dar-lhe dinheiro.
De Tó Zé a 1 de Abril de 2007 às 20:45
Nem santo nem lobo
eu que me comovo
por tudo e por nada
vi uma catraia
perdida na rua
só abandonada
vestida ia nua
já mulher-da-vida
não ouvi seus ais
ignorei sua dor
também o seu cheiro
não sei se tem pais
se é filha querida
se precisa de amor
ou apenas dinheiro
segui minha vida
de tudo alheado
ignorei seu fado
não mais a lembrei
até certo dia
ao ler um poema
ao som do Bolero
eu que me comovo
por tudo e por nada
pergunto a mim mesmo
se é isto que quero
eu que me comovo
ignoro o meu povo
nem santo nem lobo
De zenite a 3 de Abril de 2007 às 20:42

Boa malha! Gostei de ler.
Abraço.

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