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por Tó Zé Rodrigues, em 28.03.06

Alberto

Alberto Rodrigues   ( n. 18.12.1910 - f. 28-03-1995)

Boa disposição e confiança no futuro, amizade, apego à verdade, trabalho, honestidade e "fair play" no desporto e na vida, eram  o seu cartão de visita.

Foto aos 24 anos de idade







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publicado às 04:23


por Tó Zé Rodrigues, em 28.03.06

PRECE

Senhor, a noite veio e a alma é vil.

Tanta foi a tormenta e a vontade!

Restam-nos hoje, no silêncio hostil,

O mar universal e a saudade.

 

Mas a chama, que a vida em nós criou,

Se ainda há vida ainda não é finda.

O frio morto em cinzas a ocultou:

A mão do vento pode erguê-la ainda.

 

Dá o sopro, a aragem - ou desgraça ou ânsia -,

Com que a chama do esforço se remoça,

E outra vez conquistemos a Distância ­ -

Do mar ou outra, mas que seja nossa!

 

Fernando Pessoa

 

in Mensagem, Segunda Parte / Mar Português

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publicado às 00:23


por Tó Zé Rodrigues, em 27.03.06

Alcântara

Do árabe al-qanTarâ significa «ponte,viaduto,aqueduto», conforme José Pedro Machado ( in Vocabulário Português de Origem Árabe).

Em Lisboa é nome de ribeira, largo, rua, travessa, e bairro.

Hoje a paisagem de Lisboa, junto a Alcântara, é marcada pela imagem da Ponte 25 de Abril, e pelo seu antigo Aqueduto das Águas Livres.

Em Alcântara, existem também diversos viadutos e pontes que facilitam a circulação de meios de transporte e pessoas.

Ontem, 26 de Março de 2006, realizaram-se duas provas desportivas, a Meia e a Mini-Maratona, com partida no início do tabuleiro da Ponte 25 de Abril, na margem sul do rio Tejo, e final em Belém junto ao Mosteiro dos Jerónimos, as quais atravessaram Alcântara.

O escriba de serviço foi nesta ocasião também  atleta e fotógrafo, tendo feito a Mini-maratona a passo  a maior parte do tempo, mas sem ir por atalhos  ( como certos marotos ).

Pela primeira vez neste espaço junto imagens, precisamente da passagem por Alcântara:

Descida da Ponte 25 de Abril



Aproximação ao Viaduto e Estação da CP de Alcântara


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publicado às 02:53


por Tó Zé Rodrigues, em 24.03.06

Sophia

Cíclades
(evocando Fernando Pessoa)

A claridade frontal do lugar impõe-me a tua presença
O teu nome emerge como se aqui
O negativo que foste de ti se revelasse

Viveste no avesso

Viajante incessante do inverso

Isento de ti próprio

Viúvo de ti próprio

Em Lisboa cenário da vida

E eras o inquilino de um quarto alugado

[por cima de uma leitaria

O empregado competente de uma casa comercial

O frequentador irónico delicado e cortês

[dos cafés da Baixa

O visionário discreto dos cafés virados para o Tejo

 

(Onde ainda no mármore das mesas
Buscamos o rastro frio das tuas mãos

- O imperceptível dedilhar das tuas mãos)

 

 Esquartejado pelas fúrias do não-vivido

À margem de ti dos outros e da vida

Mantiveste em dia os teus cadernos todos

Com meticulosa exactidão desenhaste os mapas
Das múltiplas navegações da tua ausência –­

Aquilo que não foi nem foste ficou dito

Como ilha surgida a barlavento

Com prumos sondas astrolábios bússolas
Procedeste ao levantamento do desterro

 

Nasceste depois

E alguém gastara em si toda a verdade

O caminho da Índia já fora descoberto

Dos deuses só restava

O incerto perpassar

No murmúrio e no cheiro das paisagens

E tinhas muitos rostos
Para que não sendo ninguém dissesses tudo
Viajavas no avesso no inverso no adverso

Porém obstinada eu invoco - ó dividido -
O instante que te unisse
E celebro a tua chegada às ilhas onde jamais vieste
Estes são os arquipélagos que derivam

[ao longo do teu rosto
Estes são os rápidos golfinhos da tua alegria
Que os deuses não te deram nem quiseste
Este é o país onde a carne das estátuas

[como choupos estremece
Atravessada pelo respirar leve da luz

Aqui brilha o azul-respiração das coisas
Nas praias onde há um espelho voltado para o mar
Aqui o enigma que me interroga desde sempre
É mais nu e veemente e por isso te invoco:
«Porque foram quebrados os teus gestos?
Quem te cercou de muros e de abismos?
Quem derramou no chão os teus segredos?»


Invoco-te como se chegasses neste barco

E poisasses os teus pés nas ilhas

E a sua excessiva proximidade te invadisse
Como um rosto amado debruçado sobre ti

 

N o estio deste lugar chamo por ti

Que hibernaste a própria vida como o animal

                                             [na estação adversa

Que te quiseste distante como quem ante o quadro

                                             [pra melhor ver recua

E quiseste a distância que sofreste

 

Chamo por ti - reúno os destroços as ruínas

[os pedaços ­
Porque o mundo estalou como pedreira

E no chão rolam capitéis e braços

Colunas divididas estilhaços

E da ânfora resta o espalhamento de cacos

Perante os quais os deuses se tornam estrangeiros

 

Porém aqui as deusas cor de trigo

Erguem a longa harpa dos seus dedos

E encantam o sol azul onde te invoco

Onde invoco a palavra impessoal da tua ausência

 

Pudesse o instante da festa romper o teu luto

Ó viúvo de ti mesmo

E que ser e estar coincidissem

No um da boda

Como se o teu navio te esperasse em Thasos
Como se Penélope
Nos seus quartos altos
Entre seus cabelos te fiasse

 
1972

Sophia de Mello Breyner Andresen

 in Cem Poemas de Sophia, selecção e introdução de José Carlos de Vasconcelos, Visão e JL-Jornal de Letras, Artes e Ideias, Agosto de 2004, pp.89-92.

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publicado às 05:42


por Tó Zé Rodrigues, em 22.03.06

Conversa inútil

     "   Zotov continuava a ouvir a conversa dos outros: não contavam as coisas como se tinham passado, não haviam compreen­dido bem. Não soube resistir e levantou-se para ir explicar. Abriu a porta, parou à entrada e olhou todos, um após outro, fixando-os nos olhos.


        À direita, em frente da mesa, a pequena Valia trabalhava nas listas e nos gráficos de papel de várias cores.


        Encostado à janela, coberta também por uma cortina de papel azul, estava um banco vermelho sobre o qual se sen­tava Frosia, já não jovem, forte, com o ar impetuoso e viril das mulheres russas   habituadas a trabalhar de sol a sol. O im­permeável de encerado cinzento-verde, que usava quando estava de serviço, enchar­cado pela chuva, estava pendurado na parede, todo amarrotado, e ela, com as botas molhadas e um usado casaco negro, afinava o candeeiro de petróleo, que havia retirado na lanterna quadrangular.


        Na porta estava colado um daqueles cartazes cor-de-rosa que se viam por toda a parte em Kretchotovka: «Evitai o tifo vermelho!» O papel do cartaz era de um cor-de-rosa carregado, doentio, tal  como a exantema de um tifoso ou como as carcaças de ferro  queimado dos vagões atingidos pelo bombardeamento.


        Perto da porta, para não sujar o soalho, o velho Kordubailo  estava sentado no chão, um pouco voltado para a estufa e encostado à parede. Tinha ao seu lado  uma velha bolsa de pele com ferramentas  pesadas, colocada de modo a não impedir a passagem, e um par de  luvas impregna­das de nafta. O velho, via-se, sentara-se assim que  entrara sem sacudir a chuva e sem se despir: botas e impermeável  tinham formado pequenas poças sobre o pavimento. Por terra, entre  as pernas encolhidas, tinha uma lanterna apagada, como a da Tia  Frosia. Sob o impermeável o velho envergava uma túnica negra,  bastante suja, amarrada na cintura por uma cinta de fazenda castanha e  encardida. Havia atirado para trás o capuz: na cabeça, ainda coberta por longas madeixas, tra­zia, bem enterrado, um velhíssimo boné de  ferroviário. A pala cobria-lhe os olhos, a luz da lâmpada iluminava  apenas o nariz lívido e os grossos lábios com que Kordubailo  humedecia o cigarro, feito com papel de jornal, que estava a fumar. A sua barba eriçada conservava ainda alguns fios negros.


        - E que outra coisa podia fazer? - dizia Valia, tamborilando com o lápis sobre a mesa. - Estava de guarda, era uma sentinela!


        - Sim, é justo - anuiu o velho, deixando cair no chão e sobre a  tampa da lanterna a cinza do cigarro. É justo...
Todos querem comer.


        -
Porque dizes isso? - irritou-se a rapariga. - Todos, quem?


        - Tu e eu, e os outros – suspirou o velho.


        - És mesmo tonto, avô! Talvez es­tivessem com fome? Não lhes  dão as rações regulamentares? Que pensas? Que os fazem viajar sem  comer?


        - Sim, é justo - concordou o velho,
e do seu cigarro caiu  mais cinza em brasa, desta vez sobre um joelho e sobre a bainha da  túnica.


        - Tem cuidado, Gavrila Nikititch,  acabas por te queimar! -  avisou a Tia Frosia.


        O velho olhou com indiferença, sem sacudi-las, as pequenas  brasas que se apa­gavam sobre as suas calças acolchoadas, escuras e  encharcadas. Depois, levantou um pouco a cabeça de cabelos grisalhos sob o barrete.


        - Vocês, raparigas, já comeram por acaso farinha molhada,  diluída em água?


        - Porquê molhada? - admirou-se a Tia Frosia. - Quando está  diluída na água ponho-a a cozer no forno.


        O velho contraiu os grossos lábios pálidos e disse, após um  momento - as  palavras demoravam a sair-lhe da boca, como se  caminhassem de muletas levando muito tempo a chegar de onde  tinham nascido:


      -
Então não sabem o que é fome, minhas caras.


        O tenente Zotov entrou na sala e 
interveio:


        -
Ouve, avô, sabes o que é um juramento, não?


        Todos perceberam a irritação de Zotov.


        O avô voltou para o tenente os seus olhos turvos. Era de pequena  estatura, mas eram grandes e pesadas as suas botas  encharcadas e, aqui e ali, estavam manchadas de barro.


        - Claro - resmungou. - Eu próprio jurei cinco vezes.


        - Bem, e a quem prestaste juramento? Ao czar Nicolau?


          O velho abanou a cabeça.


        -
Antes desse.


       - Como? A Alexandre III?


           O velho franziu os lábios com ar cons­ternado e continuou a  fumar.


        -
Ah! Mas agora presta-se juramento ao povo. É um pouco  diferente, não é?


        O velho deixou cair mais cinza sobre o joelho.


       - E a farinha de quem é? Não é do povo? - disse Valia com  calor, ati­rando para trás os cabelos que lhe caíam alegremente sobre  a fronte. - Para quem a transportavam, a farinha? Para os  alemães, talvez?


        - Sim, é justo - concordou o velho. - Mas aqueles rapazes não eram alemães, também eram do nosso povo.


        Dobrou em duas a ponta do cigarro que tinha acabado de fumar e  esmagou-a contra a parte superior da lanterna.


        - Que velho cabeçudo! - exclamou Zotov. - Fazes alguma ideia  do que seja a legalidade? Que aconteceria se cada um roubasse o que lhe apetecesse, eu roubo, tu roubas... Venceríamos a guerra?


        - E porque rasgaram os sacos? - sal­tou Valia, indignada. - Que  maneiras eram aquelas? Aquilo é de gente nossa?


        Vê-se que estavam com fome­ observou Kordubailo limpando o  nariz com a mão.


        - E portam-se daquela maneira? Es­palhando a farinha por toda a  parte? Sobre as linhas?-protestou a Tia Frosia.-
A farinha dos sacos  que rasgaram ficou toda espalhada, camarada tenente! Quantas  crianças podiam ter sido alimentadas !


        -
Sim, é justo - disse o velho.­ Mas com esta chuva também o resto  deve ter ficado ensopado nos vagões descobertos.


        -
Não serve de nada falar com ele! - exclamou Zotov irritado, mais  consigo próprio do que com o velho, por se ter imiscuído numa  conversa inútil. Não façam tanto barulho! Não posso trabalhar!


        A Tia Frosia, que acabara de limpar a lanterna, fez lume e  acendeu-a.  Depois levantou-se e agarrou no seu impermeável endurecido e  amarrotado.


        
- Vamos, Valia, afia-me o lápis. Vou tomar nota dos números  do  setecentos e sessenta e cinco.


        Zotov voltou ao seu gabinete.  "



Aleksander Solkhenitzin

Extraído do conto  Na Estação de Kretchetovka, in a Casa de Matriona, Biblioteca ARCÁDIA de Bolso nº 26, Editora ARCÁDIA Limitada, 1964, pp.102-107.

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publicado às 22:30


"Sítio onde está luz; lanterna, farol" - José Pedro Machado, Vocabulário Português de Origem Árabe

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