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por Tó Zé Rodrigues, em 24.03.06

Sophia

Cíclades
(evocando Fernando Pessoa)

A claridade frontal do lugar impõe-me a tua presença
O teu nome emerge como se aqui
O negativo que foste de ti se revelasse

Viveste no avesso

Viajante incessante do inverso

Isento de ti próprio

Viúvo de ti próprio

Em Lisboa cenário da vida

E eras o inquilino de um quarto alugado

[por cima de uma leitaria

O empregado competente de uma casa comercial

O frequentador irónico delicado e cortês

[dos cafés da Baixa

O visionário discreto dos cafés virados para o Tejo

 

(Onde ainda no mármore das mesas
Buscamos o rastro frio das tuas mãos

- O imperceptível dedilhar das tuas mãos)

 

 Esquartejado pelas fúrias do não-vivido

À margem de ti dos outros e da vida

Mantiveste em dia os teus cadernos todos

Com meticulosa exactidão desenhaste os mapas
Das múltiplas navegações da tua ausência –­

Aquilo que não foi nem foste ficou dito

Como ilha surgida a barlavento

Com prumos sondas astrolábios bússolas
Procedeste ao levantamento do desterro

 

Nasceste depois

E alguém gastara em si toda a verdade

O caminho da Índia já fora descoberto

Dos deuses só restava

O incerto perpassar

No murmúrio e no cheiro das paisagens

E tinhas muitos rostos
Para que não sendo ninguém dissesses tudo
Viajavas no avesso no inverso no adverso

Porém obstinada eu invoco - ó dividido -
O instante que te unisse
E celebro a tua chegada às ilhas onde jamais vieste
Estes são os arquipélagos que derivam

[ao longo do teu rosto
Estes são os rápidos golfinhos da tua alegria
Que os deuses não te deram nem quiseste
Este é o país onde a carne das estátuas

[como choupos estremece
Atravessada pelo respirar leve da luz

Aqui brilha o azul-respiração das coisas
Nas praias onde há um espelho voltado para o mar
Aqui o enigma que me interroga desde sempre
É mais nu e veemente e por isso te invoco:
«Porque foram quebrados os teus gestos?
Quem te cercou de muros e de abismos?
Quem derramou no chão os teus segredos?»


Invoco-te como se chegasses neste barco

E poisasses os teus pés nas ilhas

E a sua excessiva proximidade te invadisse
Como um rosto amado debruçado sobre ti

 

N o estio deste lugar chamo por ti

Que hibernaste a própria vida como o animal

                                             [na estação adversa

Que te quiseste distante como quem ante o quadro

                                             [pra melhor ver recua

E quiseste a distância que sofreste

 

Chamo por ti - reúno os destroços as ruínas

[os pedaços ­
Porque o mundo estalou como pedreira

E no chão rolam capitéis e braços

Colunas divididas estilhaços

E da ânfora resta o espalhamento de cacos

Perante os quais os deuses se tornam estrangeiros

 

Porém aqui as deusas cor de trigo

Erguem a longa harpa dos seus dedos

E encantam o sol azul onde te invoco

Onde invoco a palavra impessoal da tua ausência

 

Pudesse o instante da festa romper o teu luto

Ó viúvo de ti mesmo

E que ser e estar coincidissem

No um da boda

Como se o teu navio te esperasse em Thasos
Como se Penélope
Nos seus quartos altos
Entre seus cabelos te fiasse

 
1972

Sophia de Mello Breyner Andresen

 in Cem Poemas de Sophia, selecção e introdução de José Carlos de Vasconcelos, Visão e JL-Jornal de Letras, Artes e Ideias, Agosto de 2004, pp.89-92.

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"Sítio onde está luz; lanterna, farol" - José Pedro Machado, Vocabulário Português de Origem Árabe

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