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por Tó Zé Rodrigues, em 10.05.08

A riqueza

 

“La richesse, frères croyants, ne se mesure pas aux choses qu’on possède mais à celles don’t sait se passer.”

 

  Mohamed le peseur, pai de Hassan ( Leão, O Africano),

  in Leon L’Africain, de Amin Maalouf, Edição de J.-C. Lattès,1986, pg.43.

 

Nota: Tanscrever ou fazer uma citação não é nem pretende ser sinal de erudição, nem tão pouco de compreensão do que é citado. Para mais quando a mesma está numa lingua estrangeira. Pode ser no entanto um objecto de curiosidade, reflexão  e partilha.

                                                                                                                                                    Tó Zé

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publicado às 15:08


por Tó Zé Rodrigues, em 27.10.07

O Alcorão: extractos de antiga entrevista

Relembro abaixo dois antigos apontamentos de entrevista, com o falecido Dr. Suleiman Valy Mamede, ( S.V.M.), à época Presidente da Comunidade Islâmica de Lisboa, mas que me parecem manter o interesse, e talvez também alguma actualidade, apesar da evolução política, social e religiosa entretanto ocorrida nesse vasto mundo de povos, nações e países onde se professa a religião muçulmana, o qual deverá hoje abranger perto de mil milhões de pessoas, senão mesmo mais.

I – Alcorão e não Corão

     “Expresso ( Exp .) – Uma última pergunta o Corão …
     S.V.M . – O Alcorão.      (…)      A palavra Alcorão entrou e fixou-se na língua portuguesa tal como existe em árabe, com o artigo Al. Não esqueça que nós não dizemos por exemplo, garbe ”, ou faiate ”, ou “cântara”. Porque há certas palavras que entraram no léxico português com o artigo e tal como se diziam em árabe. Essa é a opinião dos filólogos portugueses. Posso citar-lhes até o maior filólogo e arabista português vivo, que é indiscutivelmente o dr.José Pedro Machado, e que diz precisamente isso : Alcântara entrou e fixou-se tal como existe em árabe, com o artigo al. O mesmo se passa com alfinete, Algarve e logicamente, com Alcorão. “Corão” é um galicismo, e já Eça de Queiroz dizia que nós sempre tivemos a tendência de copiar o francês. E copiámos Le Coran ” … “


II – O Alcorão e a lei civil


     “ Exp . – Voltando, então, à última pergunta: a doutrina do Alcorão, tal como é praticada hoje nalguns países árabes, como autêntico código civil. Parece-lhe inteiramente correcto, ou há aí um pouco, digamos, de exagero, de excesso de zelo religioso?
     S.V.M . – Eu faria aí uma correcção, que é a seguinte: que eu saiba, o Alcorão só em dois ou três países é que efectivamente passou a ser um código de vida, isto é, penetra em todos os sectores da vida. Na maior parte dos países islâmicos, actualmente – é o caso da Argélia, da Líbia, ou do Egipto – só o Direito de Família é que se cinge ao Alcorão. No Direito Sucessório também se citam casos em que temos de ir buscar cláusulas do Alcorão. Mas só nestes casos. Porém, todos aqueles que não quiserem seguir essa lei, podem declará-lo, por escrito. É o caso, por exemplo, no Egipto, dos coptas, cristãos (à semelhança do que aliás aconteceu, durante o período, muçulmano, aqui na Península Ibérica – que durou mais de cinco séculos, em que os cristãos, então designados de “moçárabes”, até nos tribunais podiam optar pela sua lei). Nós não podemos ter a pretensão, nem queremos, obrigá-los a seguir o Alcorão, porque isso iria contrariar o verdadeiro espírito do próprio Alcorão, que admite a tolerância, por um lado, e a ecumenicidade por outro. Temos concretamente no Alcorão a frase: “Tu crês a tua verdade, eu creio a minha, tu segues o teu caminho, eu sigo o meu”. Isto é muito simples mas muito claro. Aliás, o Alcorão não poderia de modo algum responder às questões que o próprio século XX nos levanta. Por isso, existem os intérpretes do Alcorão – é uma ciência mesmo – para preencheram as lacunas que vão surgindo à medida que os tempos vão passando … “


    Estes apontamentos são  Extractos de uma entrevista do Dr. Suleiman Valy Mamede, então Presidente da Comunidade Islâmica de Lisboa, ao Semanário Lisboeta “Expresso”, de 18.3.77, conforme publicada no Boletim “O Islão – Órgão da Comunidade Islâmica de Lisboa", Ano X, Maio-Agosto de 1977-Tomo III Nº 11/12, a pp.7-9 ; selecção dos extractos e transcrição dos mesmos (que creio fiel) da minha responsabilidade.


Nota : esta entrevista já tinha sido objecto de uma outra referência mais extensa num outro local, sob a minha responsabilidade, debaixo do título "O Islão e a Sociedade"

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publicado às 07:28


por Tó Zé Rodrigues, em 18.02.07

Herança Musical Árabe

Da minha visita à Biblioteca Municipal de Oeiras, em Oeiras, no sábado, dia 10 de Fevereiro de 2007, referida noutro sítio, resultou para mim a descoberta de um livro sobre a herança musical árabe presente na arte popular portuguesa. O seu autor é Adalberto Alves e o título da obra “Arabesco Da Música Árabe e Da Música Portuguesa “.
 
Numa breve “Advertência” o autor começa por avisar que o livro não pretende ser uma obra musicológica, mas antes uma descrição informativa e uma resenha histórica, destinadas a abalar, na medida do possível, ideias assentes. E deixa um desafio para que se faça um estudo de carácter geral sobre a influência da música árabe na tradição musical portuguesa:

Será possível aceitar que a música árabe se tenha praticado no nosso terri­tório durant e cerca de um milénio mas dela não subsistam vestígios na arte do nosso povo? O que explicaria um tal fenómeno?

A tarefa, árdua mas apaixonante, de avaliar, não o se, mas o quanto, está à espera daqueles que estudando, com igual amor ao saber, música árabe e música portuguesa, redescubram o parentesco ignorado.
Adalberto Alves, in Arabesco Da Música Árabe e Da Música Portuguesa, Assírio & Alvim,Lisboa, 1989, pp.107.



Sobre o autor uma breve referência: jurista, de formação e profissão, foi também Director Bancário; no início dos anos 80 dirigiu a sua atenção enquanto investigador para os estudos árabes.
Da sua obra publicada encontramos referência, com numerosos títulos, na Base Nacional de Dados Bibliográficos, PORBASE, que poderá pesquisar aqui . Entre eles talvez os mais citados sejam “Al-Mu’tamid de Beja(1985), e “O meu coração é Árabe: poesia luso árabe(1987).






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publicado às 13:36


por Tó Zé Rodrigues, em 20.01.07

Bencatel

Bencatel é uma aldeia perto de Vila Viçosa.

Na sequência do anterior post ( sob o título Aldabrão ) e na linha da temática arabista, recebi um simpático e-mail de um amigo, ligado por laços afectivos a essa aldeia, que me questionava sobre a possível origem árabe da palavra.

Dizia ele (e espero não cometer nenhum abuso de confiança ou desrespeito de privacidade), que lá passou muito tempo da sua infância e juventude, e que, passo a citar, "o meu pai, um dia, perguntou a um árabe o significado da palavra (Bencatel ), ao que ele retorquiu, não sei se brincando, que é ben-filho catel-assassino ou executor".

Numa primeira tentativa de ir ao encontro deste pedido recorri ao prestimoso Vocabulário Português de Origem Árabe, de J.P.Machado , já antes citado. Mas aqui encontrei a informação de que a origem da palavra era obscura, existindo pelo menos um elemento arábico; esse reconhecemos claramente ser o Ben, que de facto significa fiho de; e o autor acrescenta que a terminação -el sugere influência moçarábica.

Prevaleceu o desafio do meu amigo e a pista do árabe.

Como disse alguém, está tudo nos livros,  e  eu tenho um livro, há longos anos na prateleira sem utilização, que  é o Arabic-English Dictionary, The Hans Wehr Dictionary of Modern Written Arabic, Edited by J M Cowan,1976, comprado em Maio de 1977 a conselho do então meu professor de lingua, história e cultura árabe e islâmica, Prof.Doutor António Dias Farinha, actual docente da Faculdade de Letras de Lisboa, e director do INSTITUTO DE ESTUDOS ÁRABES E ISLÂMICOS «DAVID LOPES» .

Depois de tantos anos, a busca foi uma aventura e um prazer; a pista do catel também ajudou; mas tive que ir buscar um alifato ( abecedário árabe) impresso, que já não o sabia de cor, para poder procurar a palavra no dicionário.

Depois lá encontrei a palavra árabe actual que me parece mais de acordo com a pronúncia catel, e mostro abaixo uma imagem do texto que espero não ofenda os direitos de autor .



Voltando à explicação do árabe, e sem querer contestar a sua interpretação, devo referir, que em regra, ou com muita frequência, as palavras árabes são construidas a partir de uma raiz com três consoantes. Neste caso seria q-t-l. A partir daí há toda uma grande familia de palavras que podem existir, onde essa raiz está presente, e onde se podem juntar prefixos ou sufixos, vogais longas ou breves, constituindo novas palavras com diferentes significados. Também, como no português, por vezes o contexto poderá alterar o significado que uma palavra pode assumir.

No caso desta palavra
do árabe actual, "catiiil" (com i longo), que me parece ser a mais parecida com catel; em árabe não existe o "el" ( talvez daí a ref.à influência moçarábica, J.P.Machado , ver supra); a tradução proposta é de "morto em batalha"   ou de "alguém morto em batalha" .

Assim se porventura fosse esta a palavra correspondente a catel, e dos ponto de vista filológico e do estudo da toponímia houvessem quaisquer fundamentos, poderia sugerir-se que Bencatel   significava Filho do Morto em Batalha.

Tudo isto porém não passam de considerações sem qualquer valor, o que não invalida o interesse verdadeiro pelo estudo destas questões, que hoje se renova, intensifica e diversifica, em diversos núcleos universitários em Lisboa, e creio que também no Porto, Évora e Algarve.


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publicado às 16:53


por Tó Zé Rodrigues, em 18.01.07

Aldrabão

Dizia hoje ao almoço, com uma certa graça, um colega e amigo, que Aldrabão era o nome árabe da nossa profissão.


Nome português de muitas profissões, digo eu, que nós não somos invejosos.


Aliás, quando estamos mesmo zangados aldrabão é o outro, mas quando descontraímos somos capazes de reconhecer que aqui ou ali também lhe vestimos a pele.


Sim, porque mesmo que não tenhamos feito nada para o merecer, aos olhos dos outros não deixaremos de o ser. Os políticos que o digam.


Mas amigo de saber mais um pouco deste legado tão rico fui consultar uma obra, Vocabulário Português de Origem Árabe, do já falecido José Pedro Machado, incansável estudioso, filólogo e arabista.


Segundo ele a palavra vem do árabe al-bardān , com o significado original de «louco».


Daí viria o antigo alvar­dan (séc. III, Cantigas de Santa Maria editadas por Walter Mettmann , Coimbra, 1958-1972, 401, vs.68 ),e posteriormente albardão (séc. XV, Infante D. Pedro, Livro dos Ofícios, p.68 ).
 

Mais tarde, por influência de aldraba, teria surgido   aldra­-bão ( Bluteau , 1712, aumentativo de aldraba; em 1871 , «trapaceiro»).


À parte pequenas "aldrabices", do dia à dia, que cada qual gere à sua maneira, e que por vezes muito nos fazem rir; tantas vezes de nós próprios; valha-nos isso;  penso que o rigor e a verdade são sempre os melhores cartões de visita, sejam pessoais sejam profissionais.


Ao nível das empresas, sectores de actividade, nos sectores privado ou público, e ao nível do País;  estou convicto que uma imagem de rigor e verdade, é fundamental para o seu progresso,  e deve estar assente em realidades concretas e comprováveis e não é compatível com a imagem do Aldrabão.

Assim creio que ao mesmo tempo que nos rimos da Aldrabice em geral, devemos promover o Rigor naquilo que depende de nós e apontar menos o Aldrabão que há no outro.

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publicado às 21:01


por Tó Zé Rodrigues, em 27.03.06

Alcântara

Do árabe al-qanTarâ significa «ponte,viaduto,aqueduto», conforme José Pedro Machado ( in Vocabulário Português de Origem Árabe).

Em Lisboa é nome de ribeira, largo, rua, travessa, e bairro.

Hoje a paisagem de Lisboa, junto a Alcântara, é marcada pela imagem da Ponte 25 de Abril, e pelo seu antigo Aqueduto das Águas Livres.

Em Alcântara, existem também diversos viadutos e pontes que facilitam a circulação de meios de transporte e pessoas.

Ontem, 26 de Março de 2006, realizaram-se duas provas desportivas, a Meia e a Mini-Maratona, com partida no início do tabuleiro da Ponte 25 de Abril, na margem sul do rio Tejo, e final em Belém junto ao Mosteiro dos Jerónimos, as quais atravessaram Alcântara.

O escriba de serviço foi nesta ocasião também  atleta e fotógrafo, tendo feito a Mini-maratona a passo  a maior parte do tempo, mas sem ir por atalhos  ( como certos marotos ).

Pela primeira vez neste espaço junto imagens, precisamente da passagem por Alcântara:

Descida da Ponte 25 de Abril



Aproximação ao Viaduto e Estação da CP de Alcântara


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publicado às 02:53


"Sítio onde está luz; lanterna, farol" - José Pedro Machado, Vocabulário Português de Origem Árabe

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